Encontro no velório?
Até parece ser engraçado
ser convidada para um velório de alguém que você nunca viu, mas foi isso que o
Erick fez, devo confessar que ele deveria estar mesmo precisando, pois me
chamar pra ser sua companhia é um “MILAGRE”... Achei fofinho o que ele falou a
respeito de eu ser uma pessoa boa de prosa, bem, foi isso o que eu entendi com
suas palavras desesperadas...
Eu poço não ligar muito
pro que vestir, mas nessa situação deve se tomar muito cuidado, não se pode
usar preto, pois você não tinha intimidade com o defunto para que esteja de
luto, ficaria muito falso e nada de amarelo ou rosa Pink, pois você vai passar
felicidade e essa literalmente não é a intenção!
Depois de muito tempo
escolhi uma camisa branca e uma saia justa beije, não ficou nada chamativo e
nem vulgar...
—O que acha? _Perguntei
dando uma voltinha.
—Tenho certeza que nenhum
homem vai assoviar para você. Mas está até legal.
—Sei... _Acabei sorrindo
da sua falta de entusiasmo com meu look.
—O que acha de irmos?
_Ele propões.
—Espere, preciso passar
um batom. _Falei já no banheiro, o espelho do armário acima do lavatório é o
melhor do apartamento.
Depois de já estar pronta
peguei uma bolsa antiga mais conservada, eu sou do tipo de mulher que só anda
de moto então minhas coisas normalmente ficam na mochila de costa...
—Olha, eu acho que o meu
amigo Otávio vai estar na pior! _Ele olhou-me serio e pensativo.
—E? _Esperei que ele
completasse o recado.
—Imagino que teremos que
o consolar, é só pra você não se assustar...
Continuamos a conversa sobre
esse tal amigo, eu tinha que no mínimo saber mais ou menos sobre ele, então
passamos o percurso quase todo com a conversa em torno deste assunto, observei
que Erick e o tal Otávio eram bem próximos...
De repente surgiu uma
duvida em minha cabeça...
—Erick, como você vai me
apresentar para a família? _Ele resmungou algo baixo e inaudível, provavelmente
ele estava com a cabeça no mundo da lua.
Isso era preocupante, afinal
estamos falando de mim...
Depois de quarenta
minutos chegamos... A igreja era pequena... Levantei o rosto pra fora da janela
e observei a denominação do local, de acordo com o outdoor era uma assembleia
de Deus... Isso não importava, mas é bom ler tudo aonde você vai...
—Me dê sua mão... _Ele
parecia sério, algo o atormentava, faz meia hora que ele não diz nada obseno ou
arrogante...
Apenas dei minha mão a
ele, era como se eu não devesse desobedecer!
—Bom dia senhor..._Ele
cumprimentou o porteiro. Eu apenas o
imitei...
—Sabe que pensando bem
você está muito gata! _Ele falou sorrindo discretamente enquanto avaliava as
mulheres de vestidos longos e pretos com a maquiagem toda borrada.
—Seu idiota! _Retruquei.
Nós caminhamos até uma
família que conversavam tristemente em um banco da igreja.
—Bom dia pessoal, como
vocês estão? _Ele perguntou.
—Já estivemos dias
melhores. _Um deles respondeu.
Para não parecer mal
educada acenei.
—Eu vou te levar até a
família do Otávio, eles que criavam o jovem que morreu... _Sussurrou em meu ouvido.
Caminhamos lentamente,
pude notar uns olhares em minha direção... Talvez eu não tenha escolhido a
melhor roupa...
—Oi senhor e senhora
Vieira... Como estão agora?_Ele fala os abraçando.
—Não sei descrever rapaz,
mas a ficha da perda caiu. Agora já aceitamos o fato de ser ele mesmo ali
naquele caixão. _A mulher já de idade fala baixo com a voz falha, devido o
choro que insistia em escorrer.
—Podem contar comigo no
quê precisarem. _Me ofereci.
—Que garota linda, você é
a nova namorada do Erick...
Eu fiquei sem jeito e
muito sem graça.
—Querida hoje em dia as
coisas são diferente, eles são apenas ficantes como o Otávio diz! _O senhor
explicou.
—Na verdade somos apenas
amigos. _Falei rápido tentando me justificar!
—É aquele lance amizade
colorida! Vocês dois não são capazes de compreender! _Um homem forte com um
belo sorriso se aproximou intrometendo no assunto!
Erick sorriu verdadeiro e
abraçou o homem que deduzir ser o tal Otávio.
—Meu amigo essa é minha
vizinha. _Ele me apresentou. O homem confirmou com a cabeça e beijou minha mão
fazendo graça pra descontrair.
—Então você é a tão
falada miss estresse! _Ele perguntou rindo por saber que colocou o amigo na
maior enrascada.
—Prefiro ser chamada de
Stella, mas sou eu sim! E você deve ser o louco!
—Porque louco?
—Pra ser amigo do Erick
tem que ser louco!
O homem loiro de olhos
verde parecia irritado com nossa aproximação. Afinal falávamos dele.
—Então você gosta de ser
uma afinal também é amiga dele!
—É, você me pegou...
Depois das apresentações
os rapazes saíram, eu acho que o homem do sorriso lindo queria desabafar, ele
parecia alegre, porém era uma mascara e se você olhasse no fundo de seus olhos
era capaz de enxergar a magoa e o desespero...
—Oi, meu nome é Liza...
_Uma loira de cabelos enormes se apresentou.
—É um prazer conhecê-la,
Liza. Você era parente do garoto? _Perguntei curiosa.
—Não, meu marido foi
contratado para tocar no velório! _Ela falou apontando para um homem de
semblante gentil.
—Você me parece
deslocada? _Concluiu ela.
—E estou, meu amigo pediu
minha companhia e teve que se retirar por alguns segundos! _Expliquei.
—Aquela garota parece
atordoada! _Ela me mostrou discretamente para que ninguém percebesse.
Liza tinha razão, uma
morena baixinha se arranhava freneticamente com a unha e parecia descontrolada...
—Eu vou até lá... _falou
decidida.
—Mas você nem a conhece!
_Me espantei.
—Deus vai me ajuda. _Ela
já se direcionou ao banco onde a garota estava. Eu pelo contrario fiquei mais
afastada apenas a observando.
—Qual é o seu nome, flor?
A garota respondeu em um
tom inaudível.
—O quê se passa neste seu
coração? _Ela falou apontando pro peito da garota.
—Ele era tudo pra mim...
—Eu sei, é possível
perceber o amor que você sente apenas no olhar...
—Ele me abandonou! _Ela
iniciou uma nova cessão de lágrimas.
—As pessoas não nos
abandonam quando morrem...
—Mentira, eu nunca vou
seguir em frente...
—Vai sim, eu tinha mais
ou menos sua idade quando sofremos um acidente de carro, meu pai, minha mãe e o
meu namorado Carlos morreu! Pensei que tudo tinha acabado. Foi difícil ter que
enfrentar a perca e ainda sustentar minha irmã Bia, mas consegui...
—E hoje você é feliz?
—Lógico. Deus colocou na
minha vida um cara muito especial chamado Caio e realizou os meus sonhos e de
minha irmã, tudo que restou das pessoas que se foram foi à lembrança de que
eles foram reais e que eu os amei pra valer. E hoje sei que essas lembranças
são o suficiente!
—Então o segredo é
confiar em Deus e seguir em frente?
—Sim, e jamais se perca
ou deixe a magoa te dominar!
Elas se abraçaram e Liza
retornou a mim.
Ela parecia orgulhosa por
reconfortar a garota que certamente era namorada do defunto que não sei o nome.
—Veja, meu marido vai
tocar...
Em questão de segundos um
som calmo dominou o ambiente tornando tudo mais tranqüilo... Logo o Erick retornou e pediu desculpa por
ter me deixado sozinha... A Liza foi fazer companhia ao marido nos deixando a
sós.
—Como o Otávio está?
_Perguntei preocupada.
— Não gostei de todo esse
interesse por aquele tapado! _Ele cobrou ciúmes.
—Você não tem direito de
reclamar de nada, e o seu amigo é bem interessante... _Falei pra azucrinar ele.
—Pena que você não faz o
tipo dele, não é mesmo miss estresse?
_Aquele idiota fez uma cara debochada.
Tudo continuava naquele
clima tenso e triste, afinal estávamos no velório.
—Ele está com um
semblante agonizado! _Erick cochichou em meus ouvidos.
—Talvez ele tenha ido
para o inferno! _Falei baixinho.
—Você não sabe! Deus
ensinou a não julgar alguém pela aparência!
—Mas foi só um
comentário, aliás, olha quem fala, o cara mais galinha do prédio!
—E você julgando de novo!
Eu acho que sua situação é mais precária do quê a minha!
—Pelo menos eu frequento
a igreja e leio a bíblia! _Bufei estressada.
—E quem disse que eu não?
_Ele fez aquela cara sínica que faz o meu sangue ferver!
Será que ele tem razão?
Eu não faço um julgamento precipitado! Ou melhor eu não faço um julgamento!
Eu continuava a me questionar
quando uma senhora entrou pelo corredor central da igreja...
—Meu netinho! _Gritou
apavorada!
—Calma mãe...
—Por que você não me
avisou antes! _Ela parecia indignada.
A mulher caminhou até o
caixão e desabou em lagrimas, ele parecia não se conformar com o fato de o neto
mais novo morrer...
—Ele tinha apenas 16 anos... Por que o levou, Deus? –O seu
estado dava até medo.
A situação continuou
assim até que ela começou a cambalear desorientada, o Erick correu até ela á
tempo de ampará-la em seus braços, fiquei encabulada com o a velocidade que ele
agiu, estava muito claro que ele era um ótimo bombeiro...
A mulher estava
desmaiada, eu ajudei o Erick a prestar os primeiros socorros e ao mesmo tempo
liguei para ambulância já descrevendo o quadro de saúde da vitima...
Tudo foi assustador para
os que assistiam, mas assim que a ambulância a levou para o hospital as coisas
retornaram para o normal da ocasião. Depois de umas horas teve o culto e o enterro...
Eu e o Erick acompanhamos
o Otávio em casa para confirmar que ele ficaria bom. Eu cheguei na recepção do
apartamento as quatro horas da tarde.
—Eu queria lhe agradecer
por ter me acompanhando! _Ela falou feliz.
—Sempre que precisar é só
me chamar! _Falei gentilmente.
Ele me abraçou, foi tão
fofinho esse gesto.
Então sorri com sinceridade
para lhe mostrei o quão feliz eu estava por ter sido sua companhia!
—Eu amo ver este sorriso.
_Ele confessou antes de sair.
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