Erick: Favores!
—Aonde vai, Érica?
_Perguntei á loira que ameaçava sair do apartamento.
—Vou viver minha vida!
Bem longe de você... Você já foi à pessoa que eu amei, mas agora tu não passas
de um “heróizinho” que só segue as regras! –Ela berrou.
— E quanto à criança?
— É minha filha e não
sua! _Ela completa...
—Não vai! Por favor?
_implorei.
Ela veste um casaco e sai pela porta, minha
vontade era de prendê-la, mas não é o certo a se fazer... Por que o certo é tão
complicado?
Ai que ódio! Normalmente
sei enfrentar meus sentimentos, porém nessa exata circunstancia a coisa está
diferente, o mundo parece está desmoronando! Meu trabalho está me destruindo de
dentro pra fora, me sinto regaçado! Todas as noites a cena do acidente que
envolveu o namorado da filha da Carla atormenta minha mente, o rosto da mãe e a
possa de sangue ao lado! Isso não é normal, todos os anos eu presencio
circunstancia terríveis desde que me tornei bombeiro aos vinte anos, mas 2015
está terrível, não posso suportar! E pra
piorar eu e a Érica desacertamos de novo! Mas prefiro nem pensar nisso!
Pra esfriar minha mente
liguei o som e o sintonizei no recital de violino, não estou no clima de ouvir
um rock e muito menos pop! Depois de mergulhar nas notas musicas retirei a
camisa... Coloquei o chuveiro no desligado para me esfriar! Assim que enfiei de
corpo e alma debaixo da água que escorria pelo chuveiro meus problemas
desapareceram, o som leve que saia do radio me acalmava com tamanha profundeza
impossível de se explicar...
—Vida idiota, que só feri
e machuca! –Berrei descontrolado, tudo que estava engasgado saiu!
Afinal, acho que não
estou bem, agora que retomei a minha sã consciência reparei que pareci um doido
gritando! É muita tonteira pra uma pessoa só!
Vesti uma bermuda jeans e
deitei no sofá, hoje nós acabamos pegando o turno noturno, e isso é um saco,
toda vez mal temos tempo pra respirar! São um caso atrás do outro!
Quando dei por mim acabei
dormindo...
Horas 19h30min
Pude sentir uma sensação
diferente, algo me fazia arrepiar, não era um sonho já que havia algo deslizado
em meu corpo, mas especificamente no meu peitoral...
—Oi. Como você está? –Uma
morena de olhos verdes perguntou.
— O que faz aqui, miss
estresse? _perguntei curioso.
Ela parecia sem graça por
ter sido pega no flagra, suas bochechas estavam rosadas de tanta vergonha.
—Ei, eu vim conferir como
estava! Notei o silêncio e pensei que havia algo errado, afinal aquela briga
não foi legal! _Ela respondeu muito séria.
—Então você ouviu? _fiquei totalmente envergonhado.
—O prédio inteiro exceto
o garotinho surdo do quinto andar ouviu! _tudo que pude pensar foi “Que
vexame”!
—Eu estou bem! Só tentei
dormir um pouquinho antes do meu turno noturno! _Resmunguei.
—Então deveria se
arrumar, pois já escureceu! _Ela alertou-me.
—E me desculpa por intrometer, eu só me preocupei com você!
—Eu agradeço pela
preocupação, é bom saber que mesmo sendo praticamente insuportáveis com o outros
você se importa comigo!
—Você também se importa
comigo, lembra da noite que eu acordei gritando e você foi ver como eu estava,
ou quando me salvou no incendio da universidade! –Relembrou-me.
—É uma boa ligação de
vizinho, deve ser pelo fato de sermos um dos inquilinos mais velhos do prédio!
Ela confirmou com um leve
sorriso no rosto.
—Eu vou me arrumar, tenho
que ir trabalhar...
—Tchau, seu chato...
–despediu.
—Tchau miss estresse!
_Pisquei rindo.
Vai entender essa crise
de personalidade da Stella. Assim que ela saiu me levantei e vesti a farda
cinza... As lombrigas roncavam na minha barriga alertando que era necessário
comer... Preparei apressado um sanduíche
do restinho, ele funciona mais ou menos assim, você pega o resto de carne e Põe
no pão depois pega todo tipo de enlatado desde ervilhas até azeitona e coloca,
deposita também o resto de maionese do pote e por ultimo uma rodela de tomate
uma folha de alface, assim você aproveita tudo e enche a pança.
Peguei o elevador ainda
comendo. Assim que passei pela recepção do prédio coloquei quatro reais na
maquina pra comprar uma coca bem geladinha.
—Senhor Erick, seu
aluguel venceu há dois dias... _Catarina avisou-me, com certeza ela apenas
cumpria a ordem do dono. É tão horrível ser cobrado, dá uma vergonha, mas
infelizmente meu misero salário ainda não saiu!
—Eu logo vou passar a
grana! _respondi já correndo pra não me atrasar!
Minha camionete estava no
mesmo esquema de sempre, uma sujeira precária, eu acho que já mencionei a
preguiça que tenho de lavá-la e o pior é que nem grana eu tenho pra ir a um
lava jato.
Depois de trinta e sete
minutos cheguei ao quartel. Nem todos haviam chegado, normalmente sempre tem um
enrolado que se esqueceu de acordar, mas nem posso falar deles, pois se não
fosse a Stella eu teria atrasado também!
—Erick é impressão minha
ou você está ficando gordo.
—Não começa, eu sou muito
mais gato que você, Otávio!
—Ainda bem que não se
paga por sonhar!
—Idiota! _falei enquanto
descia para a área de musculação.
—Eu vou junto... _Meu
amigo anuncia, ela faz tudo para a minha tristeza.
Comecei alongando, mas
logo iniciei o levantamento de peso! Eu não vou deixar o Otávio ganhar do meu
físico, ele pode ser mais musculoso, mas é por pouco tempo.
—Cabo Erick, o capitão
quer vê-lo! _Anuncio uma morena de cabelos lisos e pretos. Que gata, ela é linda...
—Depois que parar de
babar poderia me acompanhar... _Nossa que mico!
—Será um prazer
senhorita. _Respondi sem jeito enquanto
o Otávio permanecia enfeitiçado.
Nós percorremos um lance
de escadas sem trocar nenhuma palavra... Enjoado do silêncio decidiu perguntá-la:
—Você é a filha da Carla,
Certo? –Perguntei no chute.
—Então conhece a doce e amorosa
dona Carla! _Ela sorriu de si própria.
—Doce e amorosa? _Dei uma
gargalhada.
Logo cheguei à sala do
chefe Jorge, apenas acenei pra ela em sinal de despedida...
—Posso entrar
senhor? _Demonstrei educação.
—Lógico cabo! _Soou em um
tom firme.
—O que se trata senhor?
–Falei curioso.
—Não sei se recorda, mas
avisei após o incêndio do poço fundo que haveria algumas mudanças.
—Sim, recordo!
–Confirmei.
—Eu lhe promovo nesse
exato momento a sargento... Andei te observando desde o começo do ano!
—Mas o quê vai acontecer
com o outro sargento, desde que sei só pode ter dois e comigo serão três!
—Todas as corporações do
CB (Corpo de Bombeiro) vão fechar pra economizar gastos, nós seremos os únicos
de Brasília! Isso vai resultar em muitas transferências pra cá, dois sargentos
não será mais suficiente então arrumei você pra ser o terceiro...
—Mas vai ficar muito
corrido!
—Com certeza, mas tudo
vai dar certo...
—Eu fico felicíssimo com
sua decisão! –Falei quase dando um troço por dentro...
—Não comente com ninguém
ainda, certo Erick?
—Sim senhor! –Passei
firmeza, o que foi estranho...
Pude senti as batidas eufóricas
do coração que pulsa nesse peito! Eu ia
descer pra sala onde o pessoal está quando me deparo com o Otávio chorando no
corredor!
—Ei meu chapa, o que
houve? _perguntei preocupado.
—E-Ele, M-Mo... _Ele
parecia sem palavras.
Tentei decifrar o código!
—Respira... Com calma!
Agora fala! –Tentei o ajudar.
—Meu primo... Ele morreu!
Eu o abracei
imediatamente! Essa dor de perda eu entendo muito bem e sei o quão difícil ela
é!
—Ele era como um irmão
para mim!
Eu
fui até o chefe e expliquei a situação, imediatamente ele nos liberou. Eu compreendi
o fato de não poder fechar o quartel, pois resultaria em mais mortes de pessoas que precisavam de
nós, mas deu-me autorização para que eu ajudasse o Otávio.
—Vamos pra casa...
_Sugeri, o primo dele ainda estava no necrotério então de nada adiantaríamos
ficar na igreja...
—Eu não quero voltar pra minha casa e relembrar dele, e não
estou a fim de ouvir minha mãe chorando! –Explicou.
—Vamos pro meu
apartamento, só precisa relaxar!
Assim que cheguei ao
apartamento peguei um copo de água na geladeira e o servi. Nunca o presencie
tão abalado como hoje, perder um ente é horrível, eu falo isso com experiência
própria.
—Eu não sei o que vou
fazer... O meu primo sempre me ajudava, ele tinha um jeito sonhador de ver as
coisas! _Ele desabafou.
—Com o tempo você vai
seguir o seu rumo, as memórias de anos de convivência vão ficar gravadas em sua
mente e isso é tudo, não há mais nada, mas as lembranças são
suficientes... _Contei calmo para que
ele entendesse como seria daqui pra frente. —Lembre-se eu sempre vou está aqui para te ajudar.
—Eu sei... Você é meu
amigo do peito á cinco anos.
—E amigos do peito servem
apenas para ser feito de escravo, então fique a vontade para escravizar esse
idiota que permanece em sua frente... _Falei rindo.
O Otávio acabou
cochilando no sofá de couro mais velho que minha vovó...
4 horas e 10 minutos.
—Otávio, seu pai veio te
buscar... _O acordei.
—O corpo chegou à igreja?
_Ele perguntou desnorteado.
—Me parece que sim... Eu
peguei o endereço, eu vou pra lá assim que resolver algumas coisas aqui...
Ele assistiu e foi para a
porta do prédio aonde o pai dele se encontrava...
Eu banhei na água quente
e me arrumei... Eu sei que quanto mais tempo eu deixar ele sozinho é um
problema, mas eu realmente preciso de um tempo para descansar antes da correria
do novo dia...
Deitei na cama enorme de
casal no meu quarto e tudo que conseguir foi ficar preocupado com a Érica,
aquela loira é tudo na minha vida, mesmo ela não assumindo que me ama, eu não
posso deixa-la sozinha a mercê do mundo!
Agoniado peguei o telefone e disquei o numero da garota...
Chamou até entrar na caixa postal.
—Oi Loirinha, espero que
esteja tudo bem com você e com o bebê. Não fique longe de mim, eu preciso de
você! Por favor, eu te amo... Me retorna assim que poder...
Depois que me arrumei,
fiquei pensando em como é um velório, aquele clima tenso e fúnebre, as pessoas
querendo conversar, com certeza eu vou precisar de uma acompanhante... Repassei
em minha mente todas as garotas ideais para esse evento terrível mais nenhuma
se encaixou... Pensei até mesmo na filha da Carla, então lembrei que existe alguém
muito esperta e boa de assunto, do tipo que é inteligente e não fala bobeira, a
Stella era ideal para esse evento...
Foi com essa intenção que
me fez bater na porta de seu apartamento as cinco da manhã... Meia hora depois
uma morena branquela atendeu a porta com
a maior cara de sono...
—Preciso de você? _Falei
todo meigo.
—Affs, que novidade! Por
que precisa me acordar nesse horário? Hoje é sábado... _Ela resmungou.
Foi ai que observei o seu
pijama de florzinha curto e estranho! Não era nada sexy , mas ficava até
bonitinho!
—Preciso que me acompanhe
em um velório! Acredite, não pediria se não fosse de extrema importância...
Ela absorveu à ideia
primeiro.
—Meus pêsames... Mas eu
nem conheço o morto! _Ela falou sem graça.
—Nem eu, ele era primo do
meu amigo... Eu queria sua companhia porque você sabe ser conveniente quando se
deve!
Os olhos delas diziam que
seria um prazer realizar este favor. No fundo ela é bem bondosa. E como o
previsto aceitou o pedido...
—Espere, eu vou me
arrumar! _Avisou-me enquanto foi se trocar...
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