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sexta-feira, 19 de junho de 2015

6 Erick: Favores


Erick: Favores!


—Aonde vai, Érica? _Perguntei á loira que ameaçava sair do apartamento.
—Vou viver minha vida! Bem longe de você... Você já foi à pessoa que eu amei, mas agora tu não passas de um “heróizinho” que só segue as regras! –Ela berrou.
— E quanto à criança?
— É minha filha e não sua! _Ela completa...
—Não vai! Por favor? _implorei.
 Ela veste um casaco e sai pela porta, minha vontade era de prendê-la, mas não é o certo a se fazer... Por que o certo é tão complicado?
Ai que ódio! Normalmente sei enfrentar meus sentimentos, porém nessa exata circunstancia a coisa está diferente, o mundo parece está desmoronando! Meu trabalho está me destruindo de dentro pra fora, me sinto regaçado! Todas as noites a cena do acidente que envolveu o namorado da filha da Carla atormenta minha mente, o rosto da mãe e a possa de sangue ao lado! Isso não é normal, todos os anos eu presencio circunstancia terríveis desde que me tornei bombeiro aos vinte anos, mas 2015 está terrível, não posso suportar!  E pra piorar eu e a Érica desacertamos de novo! Mas prefiro nem pensar nisso!
Pra esfriar minha mente liguei o som e o sintonizei no recital de violino, não estou no clima de ouvir um rock e muito menos pop! Depois de mergulhar nas notas musicas retirei a camisa... Coloquei o chuveiro no desligado para me esfriar! Assim que enfiei de corpo e alma debaixo da água que escorria pelo chuveiro meus problemas desapareceram, o som leve que saia do radio me acalmava com tamanha profundeza impossível de se explicar...
—Vida idiota, que só feri e machuca! –Berrei descontrolado, tudo que estava engasgado saiu!
Afinal, acho que não estou bem, agora que retomei a minha sã consciência reparei que pareci um doido gritando! É muita tonteira pra uma pessoa só!
Vesti uma bermuda jeans e deitei no sofá, hoje nós acabamos pegando o turno noturno, e isso é um saco, toda vez mal temos tempo pra respirar! São um caso atrás do outro!
Quando dei por mim acabei dormindo...
Horas 19h30min
Pude sentir uma sensação diferente, algo me fazia arrepiar, não era um sonho já que havia algo deslizado em meu corpo, mas especificamente no meu peitoral...
—Oi. Como você está? –Uma morena de olhos verdes perguntou.
— O que faz aqui, miss estresse? _perguntei curioso.
Ela parecia sem graça por ter sido pega no flagra, suas bochechas estavam rosadas de tanta vergonha.
—Ei, eu vim conferir como estava! Notei o silêncio e pensei que havia algo errado, afinal aquela briga não foi legal! _Ela respondeu muito séria.
—Então você ouviu?  _fiquei totalmente envergonhado.
—O prédio inteiro exceto o garotinho surdo do quinto andar ouviu! _tudo que pude pensar foi “Que vexame”!  
—Eu estou bem! Só tentei dormir um pouquinho antes do meu turno noturno! _Resmunguei.
—Então deveria se arrumar, pois já escureceu! _Ela alertou-me.  —E me desculpa por intrometer, eu só me preocupei com você!
—Eu agradeço pela preocupação, é bom saber que mesmo sendo praticamente insuportáveis com o outros você se importa comigo!
—Você também se importa comigo, lembra da noite que eu acordei gritando e você foi ver como eu estava, ou quando me salvou no incendio da universidade! –Relembrou-me.
—É uma boa ligação de vizinho, deve ser pelo fato de sermos um dos inquilinos mais velhos do prédio!  
Ela confirmou com um leve sorriso no rosto.
—Eu vou me arrumar, tenho que ir trabalhar...
—Tchau, seu chato... –despediu.
—Tchau miss estresse! _Pisquei rindo.
Vai entender essa crise de personalidade da Stella. Assim que ela saiu me levantei e vesti a farda cinza... As lombrigas roncavam na minha barriga alertando que era necessário comer...   Preparei apressado um sanduíche do restinho, ele funciona mais ou menos assim, você pega o resto de carne e Põe no pão depois pega todo tipo de enlatado desde ervilhas até azeitona e coloca, deposita também o resto de maionese do pote e por ultimo uma rodela de tomate uma folha de alface, assim você aproveita tudo e enche a pança. 
Peguei o elevador ainda comendo. Assim que passei pela recepção do prédio coloquei quatro reais na maquina pra comprar uma coca bem geladinha.
—Senhor Erick, seu aluguel venceu há dois dias... _Catarina avisou-me, com certeza ela apenas cumpria a ordem do dono. É tão horrível ser cobrado, dá uma vergonha, mas infelizmente meu misero salário ainda não saiu!
—Eu logo vou passar a grana! _respondi já correndo pra não me atrasar!
Minha camionete estava no mesmo esquema de sempre, uma sujeira precária, eu acho que já mencionei a preguiça que tenho de lavá-la e o pior é que nem grana eu tenho pra ir a um lava jato. 
Depois de trinta e sete minutos cheguei ao quartel. Nem todos haviam chegado, normalmente sempre tem um enrolado que se esqueceu de acordar, mas nem posso falar deles, pois se não fosse a Stella eu teria atrasado também!
—Erick é impressão minha ou você está ficando gordo.
—Não começa, eu sou muito mais gato que você, Otávio!
—Ainda bem que não se paga por sonhar!
—Idiota! _falei enquanto descia para a área de musculação.
—Eu vou junto... _Meu amigo anuncia, ela faz tudo para a minha tristeza.
Comecei alongando, mas logo iniciei o levantamento de peso! Eu não vou deixar o Otávio ganhar do meu físico, ele pode ser mais musculoso, mas é por pouco tempo.
—Cabo Erick, o capitão quer vê-lo! _Anuncio uma morena de cabelos lisos e pretos.  Que gata, ela é linda...
—Depois que parar de babar poderia me acompanhar... _Nossa que mico!
—Será um prazer senhorita.  _Respondi sem jeito enquanto o Otávio permanecia enfeitiçado.
Nós percorremos um lance de escadas sem trocar nenhuma palavra... Enjoado do silêncio decidiu perguntá-la:
—Você é a filha da Carla, Certo? –Perguntei no chute.
—Então conhece a doce e amorosa dona Carla! _Ela sorriu de si própria.
—Doce e amorosa? _Dei uma gargalhada.
Logo cheguei à sala do chefe Jorge, apenas acenei pra ela em sinal de despedida...
—Posso entrar senhor?  _Demonstrei educação.
—Lógico cabo! _Soou em um tom firme.
—O que se trata senhor? –Falei curioso.
—Não sei se recorda, mas avisei após o incêndio do poço fundo que haveria algumas mudanças.
—Sim, recordo! –Confirmei.
—Eu lhe promovo nesse exato momento a sargento... Andei te observando desde o começo do ano!
—Mas o quê vai acontecer com o outro sargento, desde que sei só pode ter dois e comigo serão três!
—Todas as corporações do CB (Corpo de Bombeiro) vão fechar pra economizar gastos, nós seremos os únicos de Brasília! Isso vai resultar em muitas transferências pra cá, dois sargentos não será mais suficiente então arrumei você pra ser o terceiro...
—Mas vai ficar muito corrido!
—Com certeza, mas tudo vai dar certo...      
—Eu fico felicíssimo com sua decisão! –Falei quase dando um troço por dentro...
—Não comente com ninguém ainda, certo Erick?
—Sim senhor! –Passei firmeza, o que foi estranho...
Pude senti as batidas eufóricas do coração que pulsa nesse peito!  Eu ia descer pra sala onde o pessoal está quando me deparo com o Otávio chorando no corredor!
—Ei meu chapa, o que houve? _perguntei preocupado.
—E-Ele, M-Mo... _Ele parecia sem palavras.
Tentei decifrar o código!
—Respira... Com calma! Agora fala! –Tentei o ajudar.
—Meu primo... Ele morreu!
Eu o abracei imediatamente! Essa dor de perda eu entendo muito bem e sei o quão difícil ela é!
—Ele era como um irmão para mim!
Eu fui até o chefe e expliquei a situação, imediatamente ele nos liberou. Eu compreendi o fato de não poder fechar o quartel, pois resultaria  em mais mortes de pessoas que precisavam de nós, mas deu-me autorização para que eu ajudasse o Otávio.
—Vamos pra casa... _Sugeri, o primo dele ainda estava no necrotério então de nada adiantaríamos ficar na igreja...
—Eu não quero voltar pra minha casa e relembrar dele, e não estou a fim de ouvir minha mãe chorando! –Explicou.
—Vamos pro meu apartamento, só precisa relaxar!
Assim que cheguei ao apartamento peguei um copo de água na geladeira e o servi. Nunca o presencie tão abalado como hoje, perder um ente é horrível, eu falo isso com experiência própria. 
—Eu não sei o que vou fazer... O meu primo sempre me ajudava, ele tinha um jeito sonhador de ver as coisas! _Ele desabafou.
—Com o tempo você vai seguir o seu rumo, as memórias de anos de convivência vão ficar gravadas em sua mente e isso é tudo, não há mais nada, mas as lembranças são suficientes...  _Contei calmo para que ele entendesse como seria daqui pra frente. —Lembre-se  eu sempre vou está aqui para te ajudar.
—Eu sei... Você é meu amigo do peito á cinco anos.
—E amigos do peito servem apenas para ser feito de escravo, então fique a vontade para escravizar esse idiota que permanece em sua frente... _Falei rindo.
O Otávio acabou cochilando no sofá de couro mais velho que minha vovó...
4 horas e 10 minutos.  
—Otávio, seu pai veio te buscar... _O acordei.
—O corpo chegou à igreja? _Ele perguntou desnorteado. 
—Me parece que sim... Eu peguei o endereço, eu vou pra lá assim que resolver algumas coisas aqui...
Ele assistiu e foi para a porta do prédio aonde o pai dele se encontrava...
Eu banhei na água quente e me arrumei... Eu sei que quanto mais tempo eu deixar ele sozinho é um problema, mas eu realmente preciso de um tempo para descansar antes da correria do novo dia...
Deitei na cama enorme de casal no meu quarto e tudo que conseguir foi ficar preocupado com a Érica, aquela loira é tudo na minha vida, mesmo ela não assumindo que me ama, eu não posso deixa-la sozinha a mercê do mundo!
Agoniado peguei  o telefone e disquei o numero da garota... Chamou até entrar na caixa postal.
—Oi Loirinha, espero que esteja tudo bem com você e com o bebê. Não fique longe de mim, eu preciso de você! Por favor, eu te amo... Me retorna assim que poder...
Depois que me arrumei, fiquei pensando em como é um velório, aquele clima tenso e fúnebre, as pessoas querendo conversar, com certeza eu vou precisar de uma acompanhante... Repassei em minha mente todas as garotas ideais para esse evento terrível mais nenhuma se encaixou... Pensei até mesmo na filha da Carla, então lembrei que existe alguém muito esperta e boa de assunto, do tipo que é inteligente e não fala bobeira, a Stella era ideal para esse evento...
Foi com essa intenção que me fez bater na porta de seu apartamento as cinco da manhã... Meia hora depois uma morena branquela atendeu   a porta com a maior cara de sono...
—Preciso de você? _Falei todo meigo.
—Affs, que novidade! Por que precisa me acordar nesse horário? Hoje é sábado... _Ela resmungou.
Foi ai que observei o seu pijama de florzinha curto e estranho! Não era nada sexy , mas ficava até bonitinho! 
—Preciso que me acompanhe em um velório! Acredite, não pediria se não fosse de extrema importância...
Ela absorveu à ideia primeiro.
—Meus pêsames... Mas eu nem conheço o morto! _Ela falou sem graça.
—Nem eu, ele era primo do meu amigo... Eu queria sua companhia porque você sabe ser conveniente quando se deve!
Os olhos delas diziam que seria um prazer realizar este favor. No fundo ela é bem bondosa. E como o previsto aceitou o pedido... 

—Espere, eu vou me arrumar! _Avisou-me enquanto foi se trocar... 

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